E aqui vai o terceiro e último zip de hoje. Vivia-se o ano de 1969, nos Estados Unidos da America, onde imperava a luta contra a guerra do Vietnam e o movimento Hippy atingia o seu ponto culminante, em Woodstock, na quinta do Senhor Yasgur. Aí se assistiu a um dos grandes concertos de música popular pontuado por grandes actuações, enquanto a enorme assistência se amava livremente, fumava o que bem lhes apetecia, e, acompanhava, dançando, as músicas que vibravam no palco. Este zip dá pelo nome de "Woodstock", composto, para a ocasião, por essa grande senhora da música popular que dá pelo nome de Joni Mitchell. Dela, houve várias versões: a dela própria, a dos Crosby, Stills, Nash and Young e a dos Mathews Southern Comfort. Qualquer uma delas é uma excelente interpretação. Contudo, a minha escolha recai na versão dos Mathews por ser aquela que mais se aproxima do encantamento a que assistiu no famoso Festival. Um som fluído, levemente folky, country e, ligeiramente, açucarado, que nos impele, quasi imperceptivelmente, a nos envolvermos, musicalmente, fisicamente, e, instintivamente, trautearmos a letra do tema que é, no fundo, a descrição sumária do acontecimento. Recomendo que ouçam as três versões. No final, a escolha é vossa. E pronto, assim se fecharam os zips de hoje, sem dúvida, com a sua chave de ouro.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, em 09 de Maio de 2012, na Biblioteca Nacional, às 17H54.
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 09 de Maio de 2012, às 17H55, e, concluído, às 18H19 do dia 09 de Maio de 2012.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
CISCOS DIÁRIOS - 09 DE MAIO DE 2012
Lá fora, o Sol brilha. Aqui, na Biblioteca, desconheço o desconhecimento dos conhecimentos que se organizam, em labirintos, nas camuflagens do meu deserto encefálico. Sinto uma necessidade tola de me rir, ao colocar-me diante de um espelho imaginário. Cebolas de medo? Que olhar tão despiciendo. Que boca tão sedenta, não sei bem de quê. Esgrimir factos com a frontalidade das dúvidas, desancar, em quem merece, por desconhecer as raízes dos problemas inevitáveis, ironizar com comentários que se celebram como se fossem um modelo de racionalidades irracionais; não chocalhar argumentos que silenciam a sinceridade dos actos que se profanam como quem degusta ilacções imprudentes e viciadas pela invisualidade dos seus efeitos. O desgosto da impopularidade, ávida da popularidade, é um gosto que salivo com os dentes da raiva por quem não merece qualquer fatia de estima neste desconcerto de favas contadas pelos dedos da inépcia. Lá fora, o Sol brilha. Cá dentro, mastigo essa espécie de bolor que se vende às reticências do porvir, suporto sem calafrios, sem repelões, a incompreensão dos que só compreendem os ditados da sua unicidade vocal, amesquinhando as paisagens dos sonhos em que navegam todos aqueles que anseiam pelo ar puro da sua natureza. Bicadas há, que, apenas, atingem quem as dá. Revelam ignorância, são filhas de Belzebu, às portas do paraíso, simuladando e clamando pela inocência que a dureza da vida tem demonstrado que são notícias de invalidez verbal. Lá fora, o Sol brilha. Paz à sua alma.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, em 09 de Maio de 2012, na Biblioteca Nacional, às 16H44.
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 09 de Maio de 2012, às 16H45, e, concluído, às 17H33 do dia 09 de Maio de 2012.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, em 09 de Maio de 2012, na Biblioteca Nacional, às 16H44.
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 09 de Maio de 2012, às 16H45, e, concluído, às 17H33 do dia 09 de Maio de 2012.
ZIPS SONOROS - II - "SAN FRANCISCO"
Abre-se o segundo Zip Sonoro de hoje, e, dele, salta uma das mais famosas composições do movimento hippy, "San Francisco", composta por John Phillips, que integrava o grupo Mama´s and Papa´s, e interpretada por Scott McKenzie. A canção, que é de uma simplicidade contagiante, glorificava a cidade de San Francisco como o centro do seu movimento que tinha como slogan, "Make Love, Not War". Mas San Francisco não se limitava a ser, apenas, o epicentro dos hippies, era, igualmente, um importante vulcão cultural que tinha as suas origens na Beat Generation. De todo este caldeirão artistico nasceu o chamado San Francisco Sound do qual faziam parte bandas como as dos Jefferson Airplane, os Grateful Dead, os Quicksilver Messenger Service, entre muitos outros que a ele se associaram, sonoramente. "San Francisco" acaba por ser um hino dedicado à paz e à Humanidade.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, em 09 de Maio, na Biblioteca Nacional, às 15H43.
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 09 de Maio de 2012, às 15H44, e, concluído, às 16H11 do dia 09 de Maio de 2012.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, em 09 de Maio, na Biblioteca Nacional, às 15H43.
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 09 de Maio de 2012, às 15H44, e, concluído, às 16H11 do dia 09 de Maio de 2012.
SUORES FICCIONISTAS - I - HÁ TRINTA E UM ANOS - II
1981. Finais de Julho. Saí cedo de casa, transportando às costas uma mochila com tudo o que era necessário para acampar. Despedi-me dos meus pais, rumei à estação de comboios e apanhei o primeiro que passou, até ao Cais do Sodré. Depois, apanhei o ferry-boat para Cacilhas, e, quasi sem respirar, apanhei o autocarro para Setúbal. Da estação de camionagem, já, em Setúbal, apontei os meus passos para o terminal dos ferry-boats, um dos quais me levou até Troia. Deliciei-me com a vista, enquanto os meus pensamentos se reuniam à volta de uma fogueira, contemplando o silêncio, e mascando as delícias de um céu estrelado que, aos meus olhos, se assemelhavam a um manjar de deuses. Sentia no corpo essa ansiedade juvenil da descoberta do novo, da experiência que se prova, pela primeira vez, e se goza, de antecipação, o consumo extasiado de um dos sumos da vida. Vibrei com as brincadeiras dos golfinhos e, neles vi, a poesia da natureza. Finalmente, cheguei a Tróia. Abandonei o ferry. Descalcei as sapatilhas. Os pés estavam inchados, desejando ardentemente sentir a doce suavidade do ar livre. Apanhei o autocarro que me levaria ao meu destino: a praia da Comporta, aonde me iria encontrar com três amigas, a Isa, a Gina e a Ana. Desci, mesmo junto à estrada que me levaria à praia, ao ponto de encontro. O coração vibrava, os pensamentos enrolavam-se como uma vulgar onda do mar.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, em 09 de Maio de 2012, às 14H34.
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 09 de Maio de 2012, às 14H35 e, concluído, às 15H10 do dia 09 de Maio de 2012.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, em 09 de Maio de 2012, às 14H34.
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 09 de Maio de 2012, às 14H35 e, concluído, às 15H10 do dia 09 de Maio de 2012.
ZIPS SONOROS - I - "EVE OF DESTRUCTION"
Por cada Zip que se abre, uma fonte infinita de sons jorra como pepitas de ouro nas gargantas do tempo.
Estes três primeiro zips que ocuparão este espaço, abrem-se e fecham-se com relativa rapidez. São três memórias que de um certo modo se encontram ligadas por factos que se enquadram na história da música popular e na História dos Estados Unidos.
A primeira das composições, "Eve of Destruction", viu a luz do dia, em 1965, e coincidiu com o início da intervenção Estado-Unidense no Vietnam. O tema aborda de uma forma directa o sentimento de angústias e desesperos que se viviam na época da chamada "guerra fria". O conteúdo global dos seus versos é superiormente interpretado pela voz rouca e angustiada de Barry McGuire que oferece, à dimensão da composição, de P.F. Sloan, o estatuto de uma memória incontornável nas pérolas de conteúdo político-social. Para, Barry McGuire, o tema foi o grande marco da sua carreira. Ouçam o tema, e leiam, ao mesmo tempo, os versos de P.F. Sloan.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, no dia 28 de Abril de 2012.
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 09 de Maio de 2014, às 14H04.
Estes três primeiro zips que ocuparão este espaço, abrem-se e fecham-se com relativa rapidez. São três memórias que de um certo modo se encontram ligadas por factos que se enquadram na história da música popular e na História dos Estados Unidos.
A primeira das composições, "Eve of Destruction", viu a luz do dia, em 1965, e coincidiu com o início da intervenção Estado-Unidense no Vietnam. O tema aborda de uma forma directa o sentimento de angústias e desesperos que se viviam na época da chamada "guerra fria". O conteúdo global dos seus versos é superiormente interpretado pela voz rouca e angustiada de Barry McGuire que oferece, à dimensão da composição, de P.F. Sloan, o estatuto de uma memória incontornável nas pérolas de conteúdo político-social. Para, Barry McGuire, o tema foi o grande marco da sua carreira. Ouçam o tema, e leiam, ao mesmo tempo, os versos de P.F. Sloan.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, no dia 28 de Abril de 2012.
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 09 de Maio de 2014, às 14H04.
terça-feira, 8 de maio de 2012
CISCOS DIÁRIOS - 08 DE MAIO DE 2012
A vida é um nevoeiro que nos embacia o olhar. Distorce os contornos da realidade, afugenta a limpidez da claridade e oculta-nos as saudades da nossa saudade. As vozes que ouvimos são uma miscelânea curiosa de coros perdidos nos afluentes desse grande rio, que todos conhecem, que todos esquecem, nas águas revoltas do seu movimento perpétuo. O rio, a vida, o nevoeiro, todos se cruzam numa infinita cruzada de inconformismos silenciosos, de dores que são o parto de partidas irreparáveis e de chegadas aos conflitos que perduram para além de todos os mistérios. O mistério do nevoeiro, é o nevoeiro do mistério da vida. Este nevoeiro luta contra si próprio nessa pesquisa intensa de uma memória sagrada que conserva, entre as suas veias, o sangue vivificador da plenitude corporal, das fugas que iludem e que se iludem com os testamentos de uma imortalidade, cansada de ser inventada pelos ritmos da ancestralidade, escondida no nevoeiro das noites para nos ilibarem o prazer de viver. O nevoeiro é esta vida de não ser. Uma pulsão dramática no palco do efémero.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, no dia 08 de Maio de 2012, às 15H13.
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 08 de Maio de 2012, às 15H14, e, concluído, às 15H47 do dia 08 de Maio de 2012.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, no dia 08 de Maio de 2012, às 15H13.
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 08 de Maio de 2012, às 15H14, e, concluído, às 15H47 do dia 08 de Maio de 2012.
CANÇÃO - IV - MIRAGEM
Acaricio-te o rosto
mal a noite te deseja
e bebo-te o olhar de mosto
sem receio que ele me veja.
E se ao vento pergunto
que solidão é esta
que só a mim me assalta,
ouço a brisa com que unto
o amor que me resta
e o mel que te asfalta.
e mal a manhã rebenta
entre um raio de sol vivido
lambo-te a pele ciumenta
e segredo-te ao ouvido:
melopeias de xilofones,
sininhas à Peter-Pan,
melodias de cordofones
e amores com tan-tan.
Depois, logo que a coragem
adormece ao relento
me esqueço da bagagem
e me torno em pensamento,
tão veloz como o vento,
tão breve como a miragem.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criada, no comboio das 21 horas da Linha do Estoril, em 07 de Maio de 2012 e, concluída, no dia 08 de Maio de 2012, às 13H09.
Escrita, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 08 de Maio de 2012, às 14H05 e, concluída, às 14H30 do dia 08 de Maio de 2012.
mal a noite te deseja
e bebo-te o olhar de mosto
sem receio que ele me veja.
E se ao vento pergunto
que solidão é esta
que só a mim me assalta,
ouço a brisa com que unto
o amor que me resta
e o mel que te asfalta.
e mal a manhã rebenta
entre um raio de sol vivido
lambo-te a pele ciumenta
e segredo-te ao ouvido:
melopeias de xilofones,
sininhas à Peter-Pan,
melodias de cordofones
e amores com tan-tan.
Depois, logo que a coragem
adormece ao relento
me esqueço da bagagem
e me torno em pensamento,
tão veloz como o vento,
tão breve como a miragem.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criada, no comboio das 21 horas da Linha do Estoril, em 07 de Maio de 2012 e, concluída, no dia 08 de Maio de 2012, às 13H09.
Escrita, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 08 de Maio de 2012, às 14H05 e, concluída, às 14H30 do dia 08 de Maio de 2012.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
AFLUENTES POEMÁTICOS - III - O SILÊNCIO É DE COURO
Caminho, só, inflexível.
Passos trémulos de ira
na coragem do fusível,
que se funde, que se mira
no espelho da retórica.
No seu discurso afável
balanceia a vaga prece
de que o mundo amável
é um rigor que se esquece
sob a máscara eufórica
de toda a malha que tece
a imagem metafórica.
O silêncio é de couro
e, a arte, o decoro
que a abelha e o besouro
no seu flagrante namoro
espantam a foz caduca.
Triste faro, triste sina
que ao recado assiste
pela pena que assina
esse nada que persiste
no verbo de quem estuca.
Caminho, só, invisível
no acto da pesca risível.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, no dia 07 de Maio de 2012, às 17H45.
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 07 de Maio de 2012, às 17H46, e, concluído, às 18H30 do dia 07 de Maio de 2012.
Passos trémulos de ira
na coragem do fusível,
que se funde, que se mira
no espelho da retórica.
No seu discurso afável
balanceia a vaga prece
de que o mundo amável
é um rigor que se esquece
sob a máscara eufórica
de toda a malha que tece
a imagem metafórica.
O silêncio é de couro
e, a arte, o decoro
que a abelha e o besouro
no seu flagrante namoro
espantam a foz caduca.
Triste faro, triste sina
que ao recado assiste
pela pena que assina
esse nada que persiste
no verbo de quem estuca.
Caminho, só, invisível
no acto da pesca risível.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, no dia 07 de Maio de 2012, às 17H45.
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 07 de Maio de 2012, às 17H46, e, concluído, às 18H30 do dia 07 de Maio de 2012.
CISCOS DIÁRIOS - 07 DE MAIO DE 2012
Neste dia de aguaceiros fortes, não passo de um pássaro meticuloso rondando as esporas do vento, como se a imperiosa necessidade de beber a vida fosse um espelho onde o meu reflexo - Ícaro despenteado - cortasse as amarras do labirinto por onde escorrem as lágrimas deste Orpheu embebido em chuvas de lágrimas que, embora invisíveis, rolam pelo silêncio do meu dia. A vida é este desespero de estar onde não estou. É um temporal de brisas no caminho empedernido desse porvir que me abraça, delicado como um anjo sem asas, sequioso de me engolir o desprezo pela fragilidade com que o enfrento. Que corpo amará o que amarei entre rugidos de medo e copos de plenitude que, embriagado pela sonolência, beberei aos escolhos de uma urgência infinita? A resposta que pesco, não a pesquei eu, brotou pura como a alegria da fonte que se lança aos braços da inocência. Inocente é este olhar, ferroso o seu lacrimejar. Duas lágrimas que o corpo fere ao destempero da noite, brasas que, no conforto da impaciência, repicam como sinos de urgência. A noite virá e, eu, serei o que os sonhos serão: olhos de Febo, corpo de Hades.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 07 de Maio de 2012, às 16H12, e, concluído, no dia 07 de Maio de 2012, às 16H58.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 07 de Maio de 2012, às 16H12, e, concluído, no dia 07 de Maio de 2012, às 16H58.
AFLUENTES POEMÁTICOS - II - RETICÊNCIAS MADURAS
Esta é a vaga que me trespassa o instinto
e deposita na areia da indiferença
o cartaz colado em um olhar disperso,
anúncio de reticências maduras,
escultura de parasita involuntário
admirada pelo imobilidade do silêncio,
pelo o ecrã de notícias, paramentado
pelas cores da noite,
vestindo-se de insanidades perfumadas,
despindo, ao olhar da nudez,
a fragilidade do riso que estrumo
ao manto diário da passividade.
Descubro no fóssil do sumo que encubro
viagens ao âmago das memórias,
memória que danifico ao tempo
para, em gargalhadas de ouro,
esculpir as rédeas do destino
que galopam, livres,
em prados de amores traquinas,
em palavras de suor
que escrevem nas raízes do tempo
a ociosidade perfeita da morte espantada.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, em 07 de Maio de 2012, às 15H13.
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 07 de Maio de 2012, às 15H14 e, concluído, no dia 07 de Maio de 2012, às 15H41
e deposita na areia da indiferença
o cartaz colado em um olhar disperso,
anúncio de reticências maduras,
escultura de parasita involuntário
admirada pelo imobilidade do silêncio,
pelo o ecrã de notícias, paramentado
pelas cores da noite,
vestindo-se de insanidades perfumadas,
despindo, ao olhar da nudez,
a fragilidade do riso que estrumo
ao manto diário da passividade.
Descubro no fóssil do sumo que encubro
viagens ao âmago das memórias,
memória que danifico ao tempo
para, em gargalhadas de ouro,
esculpir as rédeas do destino
que galopam, livres,
em prados de amores traquinas,
em palavras de suor
que escrevem nas raízes do tempo
a ociosidade perfeita da morte espantada.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, em 07 de Maio de 2012, às 15H13.
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 07 de Maio de 2012, às 15H14 e, concluído, no dia 07 de Maio de 2012, às 15H41
SUORES FICCIONISTAS - I - HÁ TRINTA E UM ANOS - I
Estou atrasado para o encontro. Chove torrencialmente. Os relâmpagos cicatrizam o céu e os trovões são a invocação dos espíritos que se ouve no rufar dos tambores mensageiros. Mal consigo ver a estrada. Os farois perdem-se na muralha pluviosa e a iluminação da estrada dança como saltibancos hipnóticos diante dos meus olhos que piscam como pingos de chuva nos ponteiros do relógio. As mãos grudadas ao volante provam a instabilidade do carro, sentem que a ansiedade que me pica os nervos me reduz a capacidade funcional dos sentidos. Estou frenético. Não posso falhar o encontro. Escolho o acelarador. As rodas resvalam, o carro ameaça-me, e sinto, em questão de segundos, que perdi o controlo da vida. Os faróis apontam à ravina que se esconde na berma da estrada. Subitamente, uma árvore sacode-me, violentamente. Sinto o sabor do sangue quente deslizar-me pelo rosto. Perco a sensibilidade das pernas. Nada mais me resta do que a visão de um encontro. Há trinta e um anos.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, no dia 30 de Abril de 2012, às 14H46.
Escrito, diretamente, no blogue, no dia 07 de Maio de 2012, às 14H27, e terminado às 14H55 do dia 07 de Maio de 2012, às 14H55
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, no dia 30 de Abril de 2012, às 14H46.
Escrito, diretamente, no blogue, no dia 07 de Maio de 2012, às 14H27, e terminado às 14H55 do dia 07 de Maio de 2012, às 14H55
sábado, 5 de maio de 2012
CRITICARTE - I - DIVAGAÇÃO CRÍTICA
Antes que me deformem a prosa, gostaria de esclarecer que não passo de um crítico simplório. Esta presunção de ver, talvez, o que outros, talvez, não vejam, incuba, em mim, uma perspectiva de diálogo com as Artes como se estivesse empoleirado em galhos de vaidade emplumada pelas as araras de Afrodite.
Para a maioria dos olhos e dos ouvidos que se estendem pela planície humana do planeta, terem acesso a qualquer forma de Arte, basta possuirem um computador que esteja ligado à internet ou exercitar o corpo em qualquer outro meio audiovisual. Porém, cá está o porém, ver um quadro ou ver um filme, sem ser ao vivo, não é a mesma coisa do que admirá-los em uma exposição ou em um ecrã de um cinema. Tomemos como exemplo o quadro "O Grito", de Evard Munch. Já o observei várias vezes e, em várias dimensões, mas em nenhuma delas eu pude analisar o poder real dos traços que definem a expressão de desespero do rosto que nos grita, que nos fita e nos desafia com o poder do medo. Falta-nos a visibilidade real da profundidade de campo, de absorver as definições de cor que ganham, certamente, outra vida, ao escorregarmos para dentro do quadro com uma amplitude de olhar que nos permite descobrir a veracidade e os promenores das cores que nos inundam o corpo com a sensibilidade de Munch. Visionar um filme, em casa, não é o mesmo que estarmos no interior de uma sala de cinema onde, sem darmos por isso, entramos, directamente, no filme, como espectadores, como actores secundários e acabarmos por sermos alimentados pelo prazer dos vários sentimentos que, livremente, esvoaçam nos circuitos fechados da nossa frequência cerebral. A crítica varia conforme a realidade em que estamos inseridos. Porém, cá está o porém, e, em minha opinião, uma crítica só é válida quando é feita no verdadeiro ambiente para que a obra foi criada. Tudo o mais são obras de críticas em que a crítica é mal afamada e redigida com a estocada de um florete inapto.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, em 05 de Maio de 2012, às 13H05.
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 05 de Maio de 2012, às 13H50, e, concluída, às 14H34 do dia 05 de Maio de 2012.
Para a maioria dos olhos e dos ouvidos que se estendem pela planície humana do planeta, terem acesso a qualquer forma de Arte, basta possuirem um computador que esteja ligado à internet ou exercitar o corpo em qualquer outro meio audiovisual. Porém, cá está o porém, ver um quadro ou ver um filme, sem ser ao vivo, não é a mesma coisa do que admirá-los em uma exposição ou em um ecrã de um cinema. Tomemos como exemplo o quadro "O Grito", de Evard Munch. Já o observei várias vezes e, em várias dimensões, mas em nenhuma delas eu pude analisar o poder real dos traços que definem a expressão de desespero do rosto que nos grita, que nos fita e nos desafia com o poder do medo. Falta-nos a visibilidade real da profundidade de campo, de absorver as definições de cor que ganham, certamente, outra vida, ao escorregarmos para dentro do quadro com uma amplitude de olhar que nos permite descobrir a veracidade e os promenores das cores que nos inundam o corpo com a sensibilidade de Munch. Visionar um filme, em casa, não é o mesmo que estarmos no interior de uma sala de cinema onde, sem darmos por isso, entramos, directamente, no filme, como espectadores, como actores secundários e acabarmos por sermos alimentados pelo prazer dos vários sentimentos que, livremente, esvoaçam nos circuitos fechados da nossa frequência cerebral. A crítica varia conforme a realidade em que estamos inseridos. Porém, cá está o porém, e, em minha opinião, uma crítica só é válida quando é feita no verdadeiro ambiente para que a obra foi criada. Tudo o mais são obras de críticas em que a crítica é mal afamada e redigida com a estocada de um florete inapto.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, em 05 de Maio de 2012, às 13H05.
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 05 de Maio de 2012, às 13H50, e, concluída, às 14H34 do dia 05 de Maio de 2012.
CISCOS DIÁRIOS - 05 DE MAIO DE 2012
Saudações cordiais. Para todos os que gostam de sensacionalismos, eis aqui uma notícia que vos revelo em primeiríssima mão: por cada palavra que escrevo, em cada um dos posts, que faço à borla, recebo a idílica quantia de dez mil euros, o que se reflete na construção interminável de cada um deles, visando alcançar o que mais ambiciono: um cruzeiro às Antilhas. Compreendam esta minha perdição, mas um reformado, com a pensão reduzida como a minha, só serve para se sentar num banco qualquer a olhar para o espaço e sentir que as horas que passam, não dão por mim. Como não sou suficientemente sociável, não sei infiltrar-me entre os idosos que despem o seu tempo com uma suecada ou um dominó. Por isso, decidi que esta mente solitária se absorvesse com a leitura de um bom livro, nesta Biblioteca, e, renascendo para a escrita, criasse um novo blogue, para nele despejar o que bem me apetecer, como é o caso desta confissão molecular. Resta-me acrescentar que nesta luta desigual, estou só, mas é facto, não rebatível, que no final de tudo serei eu o vencedor absoluto. Apesar de tudo, ainda acredito que, neste país, a justiça não é injusta. E, agora, felizes com a notícia, espero que todos a boateiem com a descrição da gralha e com a virilidade das palavras acutilantes. Que Deus vos proteja, ó acólitos do diabo!
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 05 de Maio de 2012, às 13H12, e concluído, às 13h36 de 05 de Maio de 2012
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 05 de Maio de 2012, às 13H12, e concluído, às 13h36 de 05 de Maio de 2012
sexta-feira, 4 de maio de 2012
CISCOS DIÁRIOS - 04 DE MAIO DE 2012
Escrever o que se sente, quando não se sente, não é fácil. A facilidade é o mesmo que o consumo diário das aparências puritanas. A dificuldade não está na sede das realidades, mas no copo que a mata com os líquidos que se ingerem. A vida pode ser um prazer enlutado, mas o fumo que não se usa, apressa-nos o esquecimento e reduz-nos a memória à natureza de factos que nos enriquecem ou nos empobrecem as capacidades de sermos o que, verdadeiramente, somos. Não me visto com a influência da moda, mas a moda veste-me o olhar com a riqueza dos seus pormenores. Palmilho avenidas e ruas como qualquer passageiro mundano e perco-me, nos transportes públicos, com toda a diversidade de belezas que me ofuscam o olhar, descobrindo, com encanto, que sou tão humano como essa Humanidade que muitos desejam abraçar desconhecendo que a habitam. Escondo-a nos bolsos das calças, não para a esquecer, mas para lhe sentir o tilintar da sua harmonia. Mal cai a noite, vagueio, sombra de mim mesmo, fugindo à boca do tempo, e adormeço entre lençóis de sonhos que me ensinam a arte do deslumbramento quotidiano. Escrever é isto, não mais do que isso, isso, a palavra doméstica
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 04 de Maio de 2012, às 17H41, e, concluído, às 18H05 do dia 04 de Maio de 2012.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 04 de Maio de 2012, às 17H41, e, concluído, às 18H05 do dia 04 de Maio de 2012.
AFLUENTES POEMÁTICOS - I - FLAUTA DE SEGREDOS
QUE SOMBRAS SERÃO ESTAS
QUE EM FOMES DE MEDO
SÃO AS FUGAS DESERTAS,
AS VERDADES FALIDAS
DOS ESCOMBROS HUMANOS
QUE ENTRE A SOLIDÃO
E A FOZ NOCTURNA
DA SUAS PELES SEDENTAS
BUSCAM NO CORPO AMANTE
O AMOR DERRAMADO
PELA POESIA DO CANTO?
SÃO O CORO E O MANTO
QUE APELAM, ARGUTOS,
À ESPERANÇA DA MORTE,
PELOS DENTES DA VIDA
QUE CORROIEM ESSA SEDE
QUE O ETERNO MATA
E DESLUMBRA, CO´O FOGO,
O RUFAR DOS ENCANTOS,
A POESIA DA MANHÃ,
A FLAUTA DOS SEGREDOS
QUE EM NOTAS DE FRESCURA
SÃO AS ASAS FOGOSAS
DA NOSSA LIBERDADE.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criada, no dia 30 de Abril de 2012, às 14H38.
Escrito, diretamente, no blogue, no dia 04 de Maio de 2012, às 14H15, e concluída, no dia 04 de Maio de 2012, às 14H53.
QUE EM FOMES DE MEDO
SÃO AS FUGAS DESERTAS,
AS VERDADES FALIDAS
DOS ESCOMBROS HUMANOS
QUE ENTRE A SOLIDÃO
E A FOZ NOCTURNA
DA SUAS PELES SEDENTAS
BUSCAM NO CORPO AMANTE
O AMOR DERRAMADO
PELA POESIA DO CANTO?
SÃO O CORO E O MANTO
QUE APELAM, ARGUTOS,
À ESPERANÇA DA MORTE,
PELOS DENTES DA VIDA
QUE CORROIEM ESSA SEDE
QUE O ETERNO MATA
E DESLUMBRA, CO´O FOGO,
O RUFAR DOS ENCANTOS,
A POESIA DA MANHÃ,
A FLAUTA DOS SEGREDOS
QUE EM NOTAS DE FRESCURA
SÃO AS ASAS FOGOSAS
DA NOSSA LIBERDADE.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criada, no dia 30 de Abril de 2012, às 14H38.
Escrito, diretamente, no blogue, no dia 04 de Maio de 2012, às 14H15, e concluída, no dia 04 de Maio de 2012, às 14H53.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
CISCOS DIÁRIOS - 03 DE MAIO DE 2012
Mais um dia. Nada de especial. Li o "Livro Segundo" que faz parte do livro de Ovídio "Arte de Amar", em uma excelente tradução da poetiza Natália Correia, infelizmente, já desaparecida do mundo dos vivos. Para se amar com amor, cada ser humano deve aprender a arte difícil de comunicar com o outro. Comunicar pelo prazer, físico e intelectual. A Humanidade é uma aparência na filosofia humana do seu dia a dia. Não me apetece filosofar. Não me apetece comunicar. Este escrever para o vazio e para os olhos que tudo devoram como se fossem escravos, geram em mim a felicidade da solidão, a incompatibilidade com todos aqueles que se devoram a si mesmos com a fealdade da sua decadência mental. A fraqueza é a sua arma, a tristeza, o seu sonho de vida. Fingem, imitando, morrem, vivendo. Apreciam pouco as asas da liberdade e desconhecem que o voo dos pássaros é a ambição dos nossos desejos mais profundos. Sinto que os meus passos são inseguros, não por falta de segurança, mas porque a minha sensibilidade é um confronto constante com o segredo da ausência. Em cada dia que passa, as sombras que se revolvem à minha volta multiplicam, em mim, a urgência de uma fuga mental que construo, passo a passo, neste ritmo de compassos desconexos e de linguagem codificada que, bem lá no fundo da minha essência, são cortinas de ferro que escondem a verdade de um processo que, em um dia qualquer, desabará como um castelo de cartas construido, artificialmente, para que um peixe agulha seja, diariamente, pescado pelas redes de um pescador que desconhece as águas que pisa. O Maio das flores é este mês desflorido, incapaz de uma nota só para embelezar a tristeza que navega nas águas poluídas de uma política sem tradução. Este meu fado é uma embarcação, em constante viagem, à volta de um porto, sem cais, sem amarras que o liguem a terra firme. Mas da minha firmeza não abdico, dos meus pensamentos não abro mão, nem que ouça o rilhar de dentes que se afiam para dar caça à presa que eu sou. A paciência sou eu, os domesticados são eles. Não gosto que confundam com quem lhes apetece, desobedeço, com facilidade, às suas intrigas de uma mesquinhez absoluta e continuo, impávido e sereno, a ouvir o ritmo certo dos meus passos nas metáforas da realidade inatacável. As badaladas do meu cansaço mental decretam que siga o meu rumo. O rumo de todos os dias.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Escrito, directamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, em 03 de Maio de 2012. Iniciado, às 17H23 e, concluído, às 18H25
CANÇÃO - III - PREGÃO DE AMOR DOCE
O amor em que repouso
é silêncio amoroso,
vício que cega o pranto
e afaga com encanto
o sorriso do olhar
que se cheira sem corar,
que sob o luar do cansaço
bebe a flor do seu regaço.
E se o quadro que pinto
for como se um filme fosse,
direi que tudo o que sinto
é um pregão de amor doce.
Este amor de grossas veias
é benção de belas teias
que me saúda a saudade
e escreve na idade
a promessa da ternura
que, sedenta, me procura
p´ra me prender à palavra
que o seduz e em tudo o lavra.
Se esta chama que dói
for drama de palco duro
direi que a vida corrói
o pregão do amor puro,
Mas se o olhar for a voz
que o corpo reconhece,
serei amante e a foz
do pregão que o amor tece.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criada, em 02 de Maio de 2012.
Escrita, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, em 03 de Maio de 2012, às 13H44, e concluída, em 03 de Maio de 2012, às 15H48
é silêncio amoroso,
vício que cega o pranto
e afaga com encanto
o sorriso do olhar
que se cheira sem corar,
que sob o luar do cansaço
bebe a flor do seu regaço.
E se o quadro que pinto
for como se um filme fosse,
direi que tudo o que sinto
é um pregão de amor doce.
Este amor de grossas veias
é benção de belas teias
que me saúda a saudade
e escreve na idade
a promessa da ternura
que, sedenta, me procura
p´ra me prender à palavra
que o seduz e em tudo o lavra.
Se esta chama que dói
for drama de palco duro
direi que a vida corrói
o pregão do amor puro,
Mas se o olhar for a voz
que o corpo reconhece,
serei amante e a foz
do pregão que o amor tece.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criada, em 02 de Maio de 2012.
Escrita, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, em 03 de Maio de 2012, às 13H44, e concluída, em 03 de Maio de 2012, às 15H48
FUGAS CULINÁRIAS - I - BACALHAU DESFIADO
Delírios de uma criação culinária que dá desgosto, ao gosto.
Desde já aviso que não me comprometo com o olfacto do desgosto, nem com o gosto do desgosto.
Esta primeira receita é de uma simplicidade tal que fará inveja aos palatos e às papilas gostativas das promoções visuais que assombram os enfeites das mesas dos marajás.
Primeiro, escolher uma bela tigela de sopa. Com ornamentos e abençoada pelas pupilas da neutralidade. Na sequência lógica do que foi descrito, uma das mãos apropria-se de uma colher de sopa, enquanto, a outra, rapta o galheteiro do azeite. Esta última, enche a colher com azeite e despeja-a na tigela. Acabada a operação, esquarteja-se dois dentes de alho e mergulha-os na tigela. Com o prazer de um cozinheiro afamado, junta-se, ao descrito, umas pitadas de pimenta. Segue-se, para alegria dos dedos, a operação principal: esfiar metade de uma posta alta de bacalhau para o interior da tigela. A fase seguinte é facílima. corta-se meio limão e meia laranja, espremem-se ambos e os respectivos sumos vão alagar o conteúdo da tigela. Com a mesma colher de sopa, bate-se a mistela como se estivesse a bater claras. Logo que tudo esteja bem misturado, abre-se uma cerveja branca e uma sete up, misturando-se os dois líquidos, em partes iguais, em um copo de bela altivez. Depois, o apetite, pela coisa, faz o resto. É uma delícia. Não falha. Come-se e chora-se por mais.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, no dia 28 de Abril de 2012
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 03 de Maio de 2012, entre as 13H55 e as 14H18
Desde já aviso que não me comprometo com o olfacto do desgosto, nem com o gosto do desgosto.
Esta primeira receita é de uma simplicidade tal que fará inveja aos palatos e às papilas gostativas das promoções visuais que assombram os enfeites das mesas dos marajás.
Primeiro, escolher uma bela tigela de sopa. Com ornamentos e abençoada pelas pupilas da neutralidade. Na sequência lógica do que foi descrito, uma das mãos apropria-se de uma colher de sopa, enquanto, a outra, rapta o galheteiro do azeite. Esta última, enche a colher com azeite e despeja-a na tigela. Acabada a operação, esquarteja-se dois dentes de alho e mergulha-os na tigela. Com o prazer de um cozinheiro afamado, junta-se, ao descrito, umas pitadas de pimenta. Segue-se, para alegria dos dedos, a operação principal: esfiar metade de uma posta alta de bacalhau para o interior da tigela. A fase seguinte é facílima. corta-se meio limão e meia laranja, espremem-se ambos e os respectivos sumos vão alagar o conteúdo da tigela. Com a mesma colher de sopa, bate-se a mistela como se estivesse a bater claras. Logo que tudo esteja bem misturado, abre-se uma cerveja branca e uma sete up, misturando-se os dois líquidos, em partes iguais, em um copo de bela altivez. Depois, o apetite, pela coisa, faz o resto. É uma delícia. Não falha. Come-se e chora-se por mais.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, no dia 28 de Abril de 2012
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 03 de Maio de 2012, entre as 13H55 e as 14H18
quarta-feira, 2 de maio de 2012
CISCOS DIÁRIOS - 02 DE MAIO DE 2012
Ontem, iniciei o dia por ir almoçar à cafetaria-restaurante Quadrante, no Centro Cultural de Belém. A gentileza é apanágio de quem nos atende e a variedade o seu hábito. Depois, entretive-me a ler, no Jornal i, a entrevista com o escritor Mia Couto, a propósito do lançamento do seu mais recente livro "A Confissão da Leoa". Gostei da entrevista. Gosto da escrita de Mia Couto. A sua linguagem é um fascínio. Os perfumes africanos e moçambicanos envolvem-nos o olfacto do olhar e ilustra-nos o pensamento com as mangueiras e os cajueiros da nossa fome literária. A sua escrita é uma piroga nos rios das palavras e a originalidade do prazer africano habita as palhotas da vida. Leio Mia Couto como me leio a mim próprio. Saibo a luar, saibo ao afogamento da tristeza e descubro, em cada rota do tempo, as trovoadas e a chuva da minha sede nas picadas do tempo.
Hoje, sou tudo e nada. Consumo os pensamentos que trago à flor da pele e dispo a sua nudez com os trajes da sua natureza inóspita. A chuva é a minha transpiração e, o ritmo dos seus milímetros, a respiração sinuosa da serpente que se move entre o silêncio do nada e o rufar do tudo. O dia caminha para a noite e, eu, caminho para o universo do nada, descobrindo, em cada passo, a urgência de transferir sentimentos para esse mundo vago de sonhos que tudo são e nada valem. Sou um segundo nas asas das horas. Voo sem voar, e encontro-me na fronteira onde o tudo é nada. Assim sou, assim caminho.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 02 de Maio de 2012, às 14H59, e terminado, às 15H44
Hoje, sou tudo e nada. Consumo os pensamentos que trago à flor da pele e dispo a sua nudez com os trajes da sua natureza inóspita. A chuva é a minha transpiração e, o ritmo dos seus milímetros, a respiração sinuosa da serpente que se move entre o silêncio do nada e o rufar do tudo. O dia caminha para a noite e, eu, caminho para o universo do nada, descobrindo, em cada passo, a urgência de transferir sentimentos para esse mundo vago de sonhos que tudo são e nada valem. Sou um segundo nas asas das horas. Voo sem voar, e encontro-me na fronteira onde o tudo é nada. Assim sou, assim caminho.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 02 de Maio de 2012, às 14H59, e terminado, às 15H44
FISGADAS POLÍTICAS - I - A NOVA EUROPA
Rasgar, ao acaso, as cartas da batota política e os bluffs políticos da geração perdida são os objectivos deste espaço.
E para me projectar com a sintonia da realidade, nada melhor do que me inserir no colectivo democrático europeu. É impossível fazê-lo sem penetrar profundamente na crise da globalização, ou melhor, na globalização da crise, cujas origens são unicamente económicas, portanto, sistémicas, e devidamente ilustradas pela incapacidade de resolver os seus quistos. E não se pode iludir o facto de ela, a crise, ser, tão ou mais profunda, em países onde a matriz política é de direita. Os chamados motores da Europa - a França e, muito especialmente, a Alemanha - têm, através da imposição de medidas de austeridade, forçado, subrepticiamente, a que a Europa seja uma uniformidade direitista, cujo exemplo mais flagrante é o da Grécia. Esta manipulação retórica abrirá um espaço, cada vez mais ampliado, aos objectivos da extrema-direita que tem por base a xenofobia e a captação do descontentamento popular que se evidencia por ser contrário às medidas capciosas de austeridade que, devidamente analisadas, não proporcionam os resultados que delas se esperavam, nem a curto, nem a médio, nem a longo prazo. São um mero garrote de inutilidades. Como não podia deixar de ser, a Alemanha, assumiu-se como a locomotiva da Europa e, quem a ela se opõe, arrisca-se a sofrer as consequências das suas pretensões dictatoriais. Não será novidade para ninguém que esta posição germanófila tem à cabeça uma carapaça democrática, mas, lá no fundo, ela não é mais do que a amostra de um novo Kaiser alemão, a Fraulein Angela Merkel. Por isso, é importante que a França vote massivamente, em 6 de Maio, no Senhor François Hollande. Estes sinais de permissividade direitista tem, ao longo das últimas décadas, proporcionado a lenta e gradual ascensão da extrema-direita em toda a Europa, o que parece não preocupar ninguém, bem pelo contrário, estas direitas europeias tem por filosofia, quando se entra em tempos eleitorais, adoptar muitas das medidas que a extrema-direita inclui nos seus programas de índole, muitas vezes, neonazis. E, quanto à Grécia, é bom não esquecer que uma das suas fronteiras, é a Turquia. E a memória implora-nos que não esqueçamos que o Senhor Sarkozy tudo tem feito para impedir a entrada da Turquia na Comunidade Europeia. E os fundamentos para tal recusa são muito caros à extrema-direita: a Xenofobia. E o Tratado Orçamental Europeu nada mais é do que um carrilhão de medidas claustrofóbicas. Lamentável, foi a atitude de Portugal ter sido o primeiro a assiná-lo o que demonstra um notável sentido de submissão e que merecia, por parte de todos nós, um sentimento de repulsa governativa.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, no dia 28 de Abril de 2012
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 02 de Maio de 2012, às 14H40
E para me projectar com a sintonia da realidade, nada melhor do que me inserir no colectivo democrático europeu. É impossível fazê-lo sem penetrar profundamente na crise da globalização, ou melhor, na globalização da crise, cujas origens são unicamente económicas, portanto, sistémicas, e devidamente ilustradas pela incapacidade de resolver os seus quistos. E não se pode iludir o facto de ela, a crise, ser, tão ou mais profunda, em países onde a matriz política é de direita. Os chamados motores da Europa - a França e, muito especialmente, a Alemanha - têm, através da imposição de medidas de austeridade, forçado, subrepticiamente, a que a Europa seja uma uniformidade direitista, cujo exemplo mais flagrante é o da Grécia. Esta manipulação retórica abrirá um espaço, cada vez mais ampliado, aos objectivos da extrema-direita que tem por base a xenofobia e a captação do descontentamento popular que se evidencia por ser contrário às medidas capciosas de austeridade que, devidamente analisadas, não proporcionam os resultados que delas se esperavam, nem a curto, nem a médio, nem a longo prazo. São um mero garrote de inutilidades. Como não podia deixar de ser, a Alemanha, assumiu-se como a locomotiva da Europa e, quem a ela se opõe, arrisca-se a sofrer as consequências das suas pretensões dictatoriais. Não será novidade para ninguém que esta posição germanófila tem à cabeça uma carapaça democrática, mas, lá no fundo, ela não é mais do que a amostra de um novo Kaiser alemão, a Fraulein Angela Merkel. Por isso, é importante que a França vote massivamente, em 6 de Maio, no Senhor François Hollande. Estes sinais de permissividade direitista tem, ao longo das últimas décadas, proporcionado a lenta e gradual ascensão da extrema-direita em toda a Europa, o que parece não preocupar ninguém, bem pelo contrário, estas direitas europeias tem por filosofia, quando se entra em tempos eleitorais, adoptar muitas das medidas que a extrema-direita inclui nos seus programas de índole, muitas vezes, neonazis. E, quanto à Grécia, é bom não esquecer que uma das suas fronteiras, é a Turquia. E a memória implora-nos que não esqueçamos que o Senhor Sarkozy tudo tem feito para impedir a entrada da Turquia na Comunidade Europeia. E os fundamentos para tal recusa são muito caros à extrema-direita: a Xenofobia. E o Tratado Orçamental Europeu nada mais é do que um carrilhão de medidas claustrofóbicas. Lamentável, foi a atitude de Portugal ter sido o primeiro a assiná-lo o que demonstra um notável sentido de submissão e que merecia, por parte de todos nós, um sentimento de repulsa governativa.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, no dia 28 de Abril de 2012
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 02 de Maio de 2012, às 14H40
segunda-feira, 30 de abril de 2012
CISCOS DIÁRIOS - 30 DE ABRIL DE 2012
Abril acabou. A fonte dos meus olhos secou. Ouço uma frase solta, "nós ainda aqui estamos". Os velhacos nunca acabam. Resistem, ciclicamente, à queda outonal das folhas que representam a farsa teatral do seu palco anestesiante. No meu corpo não há prazer, nem dor. Sou uma bóia no cemitério das palavras. Resisto, porque me reinvento, diariamente, na sucursal dos mudos e dos medos que proliferam no reino da opacidade. Gosto de escrever, tal como admiro o amanhecer e o anoitecer e, entre cada uma das suas faces, espalho o meu tédio pelas leituras do acaso, pelas sombras que a cidade espalha, como cinzas, pelos afluentes dos seus sonhos. Água doce, olhares salgados. Murmúrios que a noite engole tal como o camaleão fisga o mosquito na multiplicidade das suas cores fictícias. A ficção diária não é fictícia, é o consumo publicitário da vida que se vive. Triste ou feliz. Ser ou não ser. Uma simples equação matemática da existência celular. Fecho os olhos e sigo o rumo da minha objectividade. Sou mais um dia. Nada mais.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, no dia 30 de Abril de 2012, às 14H43.
Escrito, diretamente, no blogue, no dia 30 de Abril de 2012, às 17H05 e concluído, às 17h35 do dia 30 de Abril de 2012.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Criado, no dia 30 de Abril de 2012, às 14H43.
Escrito, diretamente, no blogue, no dia 30 de Abril de 2012, às 17H05 e concluído, às 17h35 do dia 30 de Abril de 2012.
quinta-feira, 26 de abril de 2012
CANÇÕES - II - NA VERDURA DA IDADE
No mercado da Ribeira
ardem amores platónicos,
em calores de piteira,
nos sabores mais irónicos,
e na verdura da idade
que vagueia pela cidade
à procura do Chiado
onde a morna é Fado.
E se tudo é moda
na voz da grande roda
o que gira são flores
em nome dos amores
feitos das muitas cores
que desfloram as dores.
A chuva crente de Abril,
cravo rubro que vigora
num Bairro Alto febril
onde o vinho devora
o prazer de esquecer
quem nos remenda o ser
a essa coragem aflita
que se nos cola e grita
que a flor de toda a vida
é a dor dessa ferida
que a todos nos consome
como se a nossa fome
não sentisse o pudor
que acende todo o amor
ao corpo que o deseja
e à raiz que o despeja
no estrume da vida,
no cerne da ferida
para que a dor vencida
liberte a voz perdida.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 26 de Abril de 2012, às 14H27, continuado, às 17H06, às 18H34 do dia 27 de Abril de 2012, e, concluída, às 15H09 do dia 30 de Abril de 2012.
ardem amores platónicos,
em calores de piteira,
nos sabores mais irónicos,
e na verdura da idade
que vagueia pela cidade
à procura do Chiado
onde a morna é Fado.
E se tudo é moda
na voz da grande roda
o que gira são flores
em nome dos amores
feitos das muitas cores
que desfloram as dores.
A chuva crente de Abril,
cravo rubro que vigora
num Bairro Alto febril
onde o vinho devora
o prazer de esquecer
quem nos remenda o ser
a essa coragem aflita
que se nos cola e grita
que a flor de toda a vida
é a dor dessa ferida
que a todos nos consome
como se a nossa fome
não sentisse o pudor
que acende todo o amor
ao corpo que o deseja
e à raiz que o despeja
no estrume da vida,
no cerne da ferida
para que a dor vencida
liberte a voz perdida.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 26 de Abril de 2012, às 14H27, continuado, às 17H06, às 18H34 do dia 27 de Abril de 2012, e, concluída, às 15H09 do dia 30 de Abril de 2012.
CANÇÕES - I - AMOR DE SERTÃO
Sei de uma canção
que lavra o amor
sem a dor de Sansão
e a fava do fervor.
Tem brasas no olhar
e gelo na paixão
são borras de amar
em honras de sertão.
E quem se escuda
na garganta muda,
ou sofre de pranto,
ou morre de espanto
nos sonhos da beleza,
porque quem se canta
do pó se levanta
e ao fogo remata
a febre que mata
o fulgor da tristeza.
Sei de uma amante
que ama o amor
da fome distante,
da noite sem dor
e da salsa morna
que acorda quente
quem o frio adorna
na boca do poente.
E quem se derrete
acende o ferrete
às lavas do ciúme
nas asas do lume
que voam prá lá do vento
sem olhos de noite,
e quem as acoite
em lençóis de drama
e sonhos que a cama
grita ao doce alento.
cantei por cantar
o medo que fala
sem fugir ao mar
que, terno, embala
a canoa que canta
o fogo da calma
que, no corpo, planta
o siso da alma.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 26 de Abril de 2012, às 13H43, continuado, às 16H52 e, às 18H07 e concluído, às 15h03 do dia 27 de Abril de 2012
que lavra o amor
sem a dor de Sansão
e a fava do fervor.
Tem brasas no olhar
e gelo na paixão
são borras de amar
em honras de sertão.
E quem se escuda
na garganta muda,
ou sofre de pranto,
ou morre de espanto
nos sonhos da beleza,
porque quem se canta
do pó se levanta
e ao fogo remata
a febre que mata
o fulgor da tristeza.
Sei de uma amante
que ama o amor
da fome distante,
da noite sem dor
e da salsa morna
que acorda quente
quem o frio adorna
na boca do poente.
E quem se derrete
acende o ferrete
às lavas do ciúme
nas asas do lume
que voam prá lá do vento
sem olhos de noite,
e quem as acoite
em lençóis de drama
e sonhos que a cama
grita ao doce alento.
cantei por cantar
o medo que fala
sem fugir ao mar
que, terno, embala
a canoa que canta
o fogo da calma
que, no corpo, planta
o siso da alma.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Escrito, diretamente, no blogue, na Biblioteca Nacional, no dia 26 de Abril de 2012, às 13H43, continuado, às 16H52 e, às 18H07 e concluído, às 15h03 do dia 27 de Abril de 2012
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